Total Depravação – Parte I

Gunnar Lima

Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias (Ec 7. 29).

Chegamos ao nosso primeiro e sumamente importante ponto do nosso acróstico TULIP ou Total Depravação. Expliquei na introdução como se desenvolveu historicamente a velha heresia arminiana (ver o artigo O Calvinismo e a Velha Heresia Arminiana) através da História da Igreja, mostrando também figuras ilustres e de cabedal ortodoxo calvinista, bem outros de posição teológica extremamente duvidosa ou quando não inconsistente com a revelação Bíblica. Chamo este de sumamente importante porque sem ele todo elo da corrente dourada estar comprometido, não podendo se sustentar a começar do segundo ponto – Uma Eleição Incondicional.  Os homens precisam saber que são pecadores irremediavelmente perdidos, antes de saberem que foram eleitos antes da fundação do mundo.

A sociedade pós-moderna contempla o homem como algo por natureza bom e capaz de melhorar cada vez mais. A Bíblia quase silenciada pelos próprios evangélicos diz serem os homens incapazes de crer, cego para verem os raios do Sol da justiça, mudos para ouvirem a voz do pregador; estando assim numa figura muitíssima conhecida por todos – Mortos. Sem vida. Distantes de Deus. Foragidos do reino. Pecadores.

Depravação total é o ensino calvinista de explicar negativamente uma parte da soteriologia calvinista reformada. E já mais venhamos a pensar que se sustentarmos esses cinco pontos com todas as nossas forças, somos então – calvinistas. Calvinismo é muito mais que cinco pontos – é um estilo de vida, doutrina e culto centrados na Escritura.

Os calvinistas afirmam que as conseqüências da queda foram profundas em seu cerne ou como foi dito anteriormente, acreditam na queda com Q maiúsculo. Enquanto para os seguidores de Tiago Armínio a queda foi apenas um escorregão do banco ou quando não parcial e local, estou me referindo ao pelagianismo. Desta forma o homem encontra-se meio morto, guardando ainda alguma capacidade inata para voltar-se para Deus. A Escritura e a teologia sistemática exposta nos símbolos de fé da igreja negam terminantemente este ensino.

A Queda do Homem

Depois das Escrituras relatarem toda a criação e como tudo aquilo era bom aos olhos de Deus. Temos no cap. 3 de Gênesis o relato trágico da queda do homem e segundo Berkhof:

O primeiro pecado do homem foi um pecado típico, isto é, um pecado no qual a essência real do pecado se revela claramente. A essência desse pecado está no fato de que Adão se colocou em oposição a Deus, recusou-se a sujeitar a sua vontade à vontade de Deus de modo que Deus determinasse o curso da sua vida; e tentou ativamente tomar a coisa toda das mãos de Deus e determinar ele próprio o futuro. O homem, que não tinha absolutamente nenhum direito para alegar a Deus, e que só poderia estabelecer algum direito pelo cumprimento da condição da aliança das obras, desligou-se de Deus e agiu como se possuísse certos direitos contra Deus. A idéia de que o mandado de Deus era de fato uma infração dos direitos do homem parece que já estava na mente de Eva quando, em resposta à pergunta de Satanás, acrescentou as palavras, “nem tocareis nele”, Gn 3.3. Evidentemente ela quis salientar o fato de que a ordem não fora razoável. Partindo da pressuposição de que tinha certos direitos contra Deus, o homem promulgou o novo centro de operações, que viu nele próprio, onde agir contra o seu Criador. Isto explica o seu desejo de ser como Deus e a sua dúvida quanto às boas intenções de Deus ao dar-lhe a ordem. Naturalmente podem distinguir-se diferentes elementos do seu primeiro pecado. No intelecto revelou-se como incredulidade e orgulho, na vontade, como o desejo de ser como Deus, e nos sentimentos, como uma ímpia satisfação ao comer do fruto proibido (BERKHOF, 2001, Pg.215).

Assim, percebemos nitidamente que se assentou no coração dos nossos primeiros pais o pensamento de recusar-se ser submisso à vontade de Deus, de tal modo que tentou ativamente tomar das mãos do Criador o seu próprio futuro, procurando ser deuses e Senhores para si mesmo.  Eis a essência do arminianismo pré-Tiago Armínio. E é por isso que afirmamos que os homens nascem arminianos.

O Reformador João Calvino (1509-1564) ensina-nos nas Institutas que Adão e Eva foram obras criadas por Deus, mas no exato no momento que em abrigou a ingratidão tornaram-se indignos da graça do Criador:

Então, havendo o ser humano sido criado à imagem de Deus, foram-lhe concedidos bens espirituais e preeminência em vários aspectos, que podem atestar uma singular generosidade do seu Criador para com ele. Porque se ligou fortemente a ele pela participação de todos os bens, para viver eternamente, desde que perseverasse na integridade que tinha recebido. Mas isso não durou muito. Porquanto, por sua ingratidão, logo se tornou indigno de todos os benefícios que Deus lhe tinha feito. Dessa maneira foi apagada a imagem celeste que ele trazia; assim como ele foi alienado de Deus pelo pecado, igualmente foi posto fora da comunhão de todos os bens, os quais só poderá ter quem estiver naquela comunhão. Portanto, em lugar da sabedoria, da virtude, da santidade e da justiça, ornamentos de que estava revestido quando tinha em si a semelhança com Deus, vieram sobre ele males horríveis, a saber, a ignorância, a fraqueza, a torpeza, a vaidade e a injustiça, as quais não somente envolveram a sua pessoa, mas também se levantaram contra toda a sua posteridade. Porque todos os seus sucessores são semelhantes a ele, no qual eles têm a sua origem e de cuja corrupção nasce a deles (CALVINO, 2002, Liv. II Parágrafo 8).

Essa é nossa trágica história, quer que não admitamos (arminianos), ou não, mesmo que pintores excelentes sejam chamados e queiram colocar outras tonalidades no fundo do quadro o que restará é uma negra mancha impossível de se apagar através da ação do homem (Graça Preveniente). Algo que não devemos esquecer, mas apenas salientar de modo breve que a queda dos nossos primeiros pais no Éden fora decretado por Deus, Ele não foi pego de surpresa. É a Confissão de Fé de Westminster escrita pelos teólogos puritanos dos séculos 17 e 18 que é enfática afirmando que “Nossos primeiros pais, seduzidos pela astúcia e tentação de satanás, pecaram ao comerem o fruto proibido. Segundo o seu sábio e santo conselho, foi Deus servido permitir este pecado deles, havendo determinado ordená-lo para a sua própria glória” (WESTMINSTER, Cap. 6, Seção 1).

Mas esta permissão não é um mero permitir como querem alguns, porém:

A onipotência, a sabedoria inescrutável e a bondade infinita de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até à primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios e poderosamente os limita, regula e governa em uma múltipla dispensação; mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão-somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado e nem pode aprová-lo (WESTMINSTER, Cap. 5. Seção 4).

 

As Conseqüências do Pecado

A quem é destinada à herança do pecado?  Quantas vítimas foram acometidas da Queda de Adão? Só os adultos ou adultos e crianças? Para o ensino dos arminianos que visamos mostrar sua inconsistência com os padrões bíblicos no decorrer do nosso estudo, essa queda não foi tão fatal assim, mas deixou “certas” habilidades no homem. O escritor da obra mais citado em trabalhos acerca da predestinação e das “Antigas” Doutrinas da graça, Loraine Boettner diz que:

O Arminianismo é no máximo uma tentativa vaga e indefinida de reconciliação, flutuando no meio do caminho entre os destacados sistemas de Pelágio e de Agostinho, eliminando as fronteiras de cada um, e pendendo ora na direção de um, ora na direção de outro. O Dr. A. A. Hodge refere-se ao Arminianismo como um “sistema de compromisso elástico e multiface”.  Sua idéia principal é que graça divina e a vontade humana juntas completam o propósito da conversão e santificação, e que o homem tem o direito soberano de aceitar ou rejeitar. Afirma que o homem é fraco como resultado da queda, mas nega que toda habilidade tenha sido perdida. O homem meramente precisa da graça divina para assistir (ajudar, complementar) seus esforços pessoais. Ou, colocando de outra forma, ele é doente, mas não morto; ele realmente não pode ajudar a si mesmo, mas pode receber ajuda de um médico, e pode tanto aceitar como rejeitar a ajuda, quando oferecida. Ele assim tem poder para cooperar com a graça de Deus no que se refere à salvação. 

Esta vista exalta a liberdade do homem à custa da soberania de Deus. Tem alguma autoridade Bíblica aparente, mas não é real; e é cabalmente contradita por outras partes das Escrituras (BOETHNE, 1932, Pg. 38. Ênfase acrescentada).

Desta forma o pecado dos nossos primeiros pais os atingiu profundamente e não sua descendência. A sua posteridade ficou com sintomas de uma doença, apenas isso. As Escrituras nos dizem que não, eles foram o tronco da humanidade.

A Bíblia enfaticamente revela que Adão foi o cabeça da raça humana de sorte que, não é possível encontrar nem um sequer ser humano que não tenha as marca mortais dessa Queda. Todos sem exceção; encontram-se desviados da glória de Deus (Rm 3.23). Todo o pensamento do seu coração é corrompido desde a sua meninice (Gn 8. 21). O quadro que as Escrituras mostram após a queda é assustador; e somente com as lentes do calvinismo é possível enxergar, toda essa multiplicação do pecado.

As conseqüências da queda e o primeiro pecado são bem resumidos por Berkhof em cinco proposições que seque o seguinte:

  1. O concomitante imediato do primeiro pecado e, portanto, dificilmente um resultado dele no sentido estrito da palavra, foi a depravação total da natureza humana. O contágio do seu pecado espalhou-se imediatamente pelo homem todo, não ficando sem ser tocada nenhuma parte da sua natureza, mas contaminando todos os poderes e faculdades do corpo e da alma. Esta completa corrupção do homem é ensinada claramente na Escritura, Gn 6.5; Sl 14.3; Rm 7.18. A depravação total de que se trata aqui não significa que a natureza humana ficou logo tão completamente depravada como teria a possibilidade de vir a ser. Na vontade essa depravação manifestou-se como incapacidade espiritual.
  1. Imediatamente relacionada com a matéria do item anterior, deu-se a perda da comunhão com Deus mediante o Espírito Santo. Esta é simplesmente o reverso da completa corrupção mencionada no parágrafo anterior. Ambos podem ser combinados numa única declaração, de que o homem perdeu a imagem de Deus no sentido de retidão original. Ele rompeu com a verdadeira fonte de vida e bem-aventurança, e o resultado foi uma condição de morte espiritual, Ef 2.1, 5, 12; 4.18.
  1. Esta mudança da condição real do homem refletiu-se também em sua consciência. Houve, primeiramente, uma consciência da corrupção, revelando-se no sentido de vergonha, e no esforço que os nossos primeiros pais fizeram para cobrir a sua nudez. E depois houve uma consciência de culpa, que achou expressão numa consciência acusadora e no temor de Deus que isso inspirou.
  1. Não somente a morte espiritual, mas também a morte física resultou do primeiro pecado do homem. De um estado de posse non mori (Posso não pecar) desceu a um estado de non possenon mori (Incapaz de não pecar). Havendo pecado, ele foi condenado a retornar ao pó do qual fora tomado, Gn 3.19. Diz-nos Paulo que por um homem a morte entrou no mundo e passou a todos os homens, Rm 5.12, e que o salário do pecado é a morte, Rm 6.23.
  1. Esta mudança redundou também numa necessária mudança de resistência. O homem foi expulso do paraíso, porque este representava o lugar da comunhão com Deus, e era símbolo da vida mais completa e de uma bem-aventurança maior reservadas para ele, se continuasse firme. Foi-lhe vedada a árvore da vida, porque esta era o símbolo da vida prometida na aliança das obras (BERKHOF, 2000, Pg.219)

Assim, há em Adão uma solidariedade com a raça humana. A teologia calvinista ver-nos caídos em Adão e o mesmo como uma árvore sendo o tronco e nós o seu enxerto:

Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária (WESTMINSTER, Cap. 6, Sec. 3 ).

Mesmo que a Bíblia de Estudo Pentecostal nos diga o contrário e chegue contradizer até mesmo grandes homens do passado como Santo Agostinho, permanece a verdade. Esta Bíblia de cunho teológico puramente arminiano e quando não pelagiano, comentado Romanos Capitulo Cinco e o verso doze diz assim:

(2) Paulo não explica como o pecado de Adão é transmitido aos seus descendentes. Nem diz que toda a humanidade estava presente em Adão e que assim ela participou do seu pecado e por isso herda a sua culpa. Paulo não diz, em nenhum lugar, que Adão foi o cabeça coletivo dos seus descentes, nem que o pecado de Adão foi-lhes imputado. Todos são culpados diante de Deus por causa dos seus próprios pecados pessoais, “por que todos pecaram” (v.12). O único ensino no tocante a isso, que tem a apoio bíblico, é que homens e mulheres herdam uma natureza moral corrupta, bem como a propensão para o pecado e o mal (PENTECOSTAL, 1995, Pg. 1706. Ênfase acrescentada).

A mesma Bíblia comentado o verso 14 escreve:

A raça humana experimentou a morte, não porque transgrediu a lei oral de Deus, com sua pena de morte, como no caso de Adão (vv.13,14), mas porque os seres humanos realmente eram pecadores pela prática, bem como pela a sua natureza e transgrediram a lei da consciência, escrita nos seus corações (PENTECOSTAL, Op. Cit; Pg. 1706. Ênfase acrescentada).   

Nega que pecado original afetou até mesmo as crianças, observemos desta vez o Capitulo sete e os versos nove a onze:

As declarações de Paulo, “eu… vivia” (v 9) e “o pecado.. me matou” (v.11). Apóiam a crença geral que a criança é inocente até deliberadamente pecar contra a lei de Deus no coração. O ensino que diz que as criancinhas entram no mundo afetadas pela culpa do pecado e dignas de condenação eterna não se acha nas Escrituras (PENTECOSTAL, 1995, Pg. 1709. Ênfase acrescentada).

Qualquer pessoa versada ou até mesmo um bom leitor da História dos Dogmas compreenderá que estamos diante de uma das grandes heresias que surgiu no início da era cristã.

Teorias a Respeito da Queda – Fazendo um Breve Exame

Sproul, grande teólogo calvinista do nosso século no seu livro “Eleitos de Deus” escreve um capítulo com o titulo A Queda de Adão e a Minha, onde o mesmo mostra algumas teorias que envolvem esta questão e sua importância, pois somos pecadores por natureza e não porque praticamos o pecado. Não precisa concordar, basta ler, é desta maneira que venha a compreensão do ensino. O escritor citado lembra “que o pecado original não se refere ao primeiro pecado, mas ao resultado daquele primeiro pecado” e que:

As Escrituras falam repetidamente de pecado e morte entrando no mundo através da “transgressão de um homem.” Como resultado do pecado de Adão, todos os homens são agora pecadores. A queda foi grande. Teve repercussões radicais para a raça humana inteira (Sproul, 2002, Pg. 32).

Mas esteve sozinho Adão ou a sua decisão foi a minha?

As implicações que a envolve são bastante complexas. Assim, vejamos algumas dessas complexidades como: A Teoria Pelagiana Acerca do Pecado; Teoria do Mito da Queda; A Visão Realista de Queda e A Visão Federal ou Representativa da Queda. Comecemos então.

Teoria do Mito da Queda

Esta teoria propõe que jamais existiu ou se quer houve uma queda. O relato de Gênesis é completamente mitológico e na pior das loucuras nunca existiram personagens com o nome de Adão e Eva. Como então é visto o pecado nesta estranha concepção?

A verdade moral comunicada pelo mito é que as pessoas caem em pecado. Pecado é um problema universal. Todos cometem pecado; ninguém é perfeito. O mito aponta para uma realidade mais alta: Toda pessoa é seu próprio Adão. Toda pessoa tem sua própria queda particular.

O pecado é uma condição humana universal precisamente porque cada pessoa sucumbe à sua própria tentação particular ( SPROUL, Op. Cit; Pg. 31).

Quais as vantagens desta teoria?

1º Absorve totalmente de Deus a responsabilidade por fazer pessoas que serão responsáveis pelo pecado de determinado casal;

2º Não exige que seja defendido o caráter literal de Gênesis não havendo nenhuma disputa sobre evolução versus criação, simplesmente por trata-se de um mito.

Desvantagens da teoria do mito da queda:

1º Não há nenhuma explicação plausível sobre a universalidade do pecado;

2º Interpreta os capítulos de abertura das Escrituras não como fatos;

3º Quebra os paralelos que o apóstolo Paulo faz entre Adão e Cristo – Como o segundo Adão, interpretando assim, Gênesis literalmente, apesar da sua estrutura textual.

A Teoria Realista da Queda

Nós não estávamos lá! Afirma os defensores desta teoria. Sproul afirma que:

O conceito-chave é este: Não podemos, moralmente, ser tidos como responsáveis por um pecado cometido por outra pessoa. Para ser responsáveis, é preciso que tenhamos estado envolvidos, de algum modo, no próprio pecado. De algum modo, devemos ter estado presentes na Queda. Realmente presentes. Daí o nome Realismo. A visão realista da Queda exige algum tipo de conceito da preexistência da alma humana.

Isto é, antes de termos nascido, nossas almas precisam realmente ter existido. Estavam presentes com Adão na Queda. Caíram com Adão. O pecado de Adão não foi meramente um ato para nós; foi um ato conosco. Estávamos lá (SPROUL, Op. Cit; Pg. 34).

Observando as citações da Bíblia de Estudo Pentecostal percebemos não somente a presença desta teoria, bem como a própria negação do pecado original.

Estudemos então esta posição. Os autores da Teologia Sistemática Alan Myatt e Franklin Ferreira dizem:

O ponto de vista real, identidade seminal, Adão como o cabeça natural da humanidade. A idéia é que realmente toda a humanidade participou no pecado de Adão, porque toda a humanidade, todas as pessoas, estava presente na natureza de Adão. Alguns afirmam que existe só uma natureza humana, e cada pessoa tem uma parte pequena desta natureza. Adão possuiu esta natureza inteira; cada descendente recebe uma parte. Ou toda a raça humana naquele momento. Então, a raça humana pecou no pecado de Adão e Eva. Outros usam Hb 7.9-10 para apoiar a idéia que estávamos presente nos lombos de Adão; temos uma identidade real, quase física com  Adão (ALAN  MYATT E FRANKLIN FERREIRA, 2002, Pg. 128).

Berkhof saliente que a teoria realista da queda é na verdade:

O mais antigo método usado para explicar a relação existente entre o pecado de Adão e a culpa e corrupção de todos os seus descendentes foi a teoria realista. Essa teoria pretende que a natureza constitui uma única unidade, não apenas genérica, mas também numericamente. Adão possuía a natureza humana completa, e nele ela se corrompeu, por ato de apostasia dela em Adão.

Individualmente, os homens não são substâncias isoladas, mas, sim, manifestações da mesma substância geral; são numericamente um só. Essa natureza humana universal tornou-se corrupta e culpada em Adão, e, conseqüentemente, cada individualização dela nos descendentes de Adão também é corrupta e culpada desde o inicio da sua existência. Quer dizer que todos os homens pecaram de fato em Adão, antes de ter começo a individualização da natureza humana (BERKHOF, Op Cit; Pg. 250).

Mesmo que esta teoria afirme a literalidade de Gênesis e de seus personagens ao contrário da teoria do Mito da Queda; Continua ainda o elemento que confunde se não prestarmos atenção. A afirmação que todos os homens pecaram, até parece Bíblica, mais em seguida, diz que todos pecaram de fato em Adão, antes de ter começo a individualização da natureza humana. 

As objeções que o professor Louis Berkhof faz a esta teoria realista da queda são bastante pertinentes ao nosso estudo:

(1) Descrevendo as almas dos homens como individualizações da substância espiritual geral que estava presente em Adão, parece implicar que a substância da alma é de natureza material, e assim nos larga inevitavelmente nalgum tipo de materialismo.

(2) É contrária ao testemunho da consciência e não protege suficientemente os interesses da personalidade humana. Todo homem tem consciência de que é uma personalidade à parte, e, portanto, é muito mais que uma simples onda que passa no oceano geral da existência.

(3) Ela não explica por que os descendentes de Adão são responsabilizados somente pelo primeiro pecado dele, e não por seus pecados posteriores, nem pelos pecados de todas as gerações de antepassados subseqüentes a Adão.

(4) tampouco essa teoria responde a importante indagação, por que Cristo não foi responsabilizado pela prática fatual do pecado em Adão, pois certamente Ele compartilhou a mesma natureza que pecou de fato em Adão (BERKHOF, Op Cit; Pg. 251).

 

Teoria Pelagiana Acerca do Pecado

Em nossa Introdução na página 2 podemos saber sobre Agostinho versus Pelágio, desta feita não se faz preciso falar sobre estes dois ícones da História da Igreja.

O intuito é ver mais de perto o pensamento de Pelágio acerca do pecado original, e então percebermos as semelhanças há com a nota de estudo da Bíblia Pentecostal. Seguindo mais uma vez a sistemática, a teoria pelagiana acerca do pecado é afirmada assim:

Pelágio tomou o seu ponto de partida na capacidade do homem. Sua proposição fundamental é: Deus ordenou ao homem que praticasse o bem; daí, este deve ter capacidade para fazê-lo. Significa que o homem tem livre arbítrio no sentido absoluto da expressão, de modo que lhe é possível decidir a favor ou contra o que é bom, e também praticar tanto o bem como o mal. A decisão não depende de qualquer caráter moral que haja no homem, pois a vontade é inteiramente indeterminada.

Se o homem vai fazer o bem ou o mal depende simplesmente da sua vontade livre e independente. Disto se segue, naturalmente, que não existe o que chamam de desenvolvimento moral do indivíduo. O bem e o mal estão localizados nas ações isoladas do homem. Desta posição fundamental decorre naturalmente o ensino de Pelágio a respeito do pecado. O pecado consiste somente nos atos isolados provenientes da vontade. A coisa chamada natureza pecaminosa não existe, como tampouco as chamadas disposições pecaminosas. O pecado é sempre uma escolha deliberada do mal, escolha feita por uma vontade perfeitamente livre e que igualmente pode escolher e seguir o bem (BERKHOF, Op Cit; Pg. 242).

Ainda o mesmo autor pondera:

Mas se fosse assim, inevitavelmente se seguiria que Adão não foi criado num estado de santidade positiva, mas, sim, num estado de equilíbrio moral, Sua condição seria de neutralidade moral. Nesse caso, ele não era nem bom nem mau, e, portanto, não tinha natureza moral; mas ele escolheu o curso do mal, e assim se tornou pecaminoso. Considerando que o pecado consiste unicamente em atos isolados decorrentes da vontade, a idéia da sua propagação pela procriação é absurda. Uma natureza pecaminosa, se existisse tal coisa, poderia passar de pai a filho, mas os atos pecaminosos não podem ser propagados dessa maneira. Isso é por natureza uma impossibilidade. Adão foi o primeiro pecador, mas em nenhum sentido o seu pecado passou aos seus descendentes. O que chamam de pecado original, não existe. As crianças nascem num estado de neutralidade, começando exatamente como Adão começou, com a exceção de que levam a desvantagem de terem maus exemplos ao seu redor (…). Estritamente falando, segundo o ponto de vista pelagiano, não há pecadores, mas tão somente atos pecaminosos isolados. Isso impossibilita completamente uma concepção religiosa da história da raça (BERKHOF, Op Cit; Pg. 243).

Pecadores neutros. Crianças sem pecado. A afirmação da Bíblia de Estudo Pentecostal precisa ser refeita, pois afirmar que não se acha nas Escrituras que os infantes não foram afetados pela culpa de Adão é estar do lado de homens como Pelágio e Charles Finney que negaram a culpa imputada, isto não é nada ortodoxo.

As declarações de Paulo, “eu… vivia” (v 9) e “o pecado.. me matou” (v.11). Apóiam a crença geral que a criança é inocente até deliberadamente pecar contra a lei de Deus no coração. O ensino que diz que as criancinhas entram no mundo afetadas pela culpa do pecado e dignas de condenação eterna não se acha nas Escrituras (PENTECOSTAL, 1995, Pg. 1709. Ênfase acrescentada).

Calvino mais uma vez, refutando de modo magistral o pensamento pelagiano é enfático em dizer que mesmo as crianças, são sim, afetadas pelo pecado, pois foram concebidas com essa semente do mal.

Por certo que não é ambíguo o que Davi confessa, a saber, ter sido gerado em iniqüidades e de sua mãe concebido em pecado [Sl 51.5]. Não está ele aí a censurar as faltas do pai ou da mãe; antes, para que melhor enalteça a bondade de Deus para consigo, faz remontar a confissão de sua iniqüidade à própria concepção. Uma vez ser evidente não ter sido isso peculiar a Davi, segue-se que sob seu exemplo se denota a sorte comum do gênero humano. Portanto, todos que descendemos de uma semente impura, nascemos infeccionados pelo contágio do pecado. Na verdade, antes que contemplemos esta luz da vida, à vista de Deus já estamos manchados e poluídos. Pois, “quem do imundo tirará o puro?” Certamente, como está no livro de Jó 14.4, ninguém!(CALVINO, 2005, Liv. 2, Parágrafo 5).

Ainda, segundo o mestre de Genebra, todos foram sem exceção, manchados por aquilo que chamamos de pecado original.

Ouvimos que a depravação dos pais de tal modo se transmite aos filhos, que todos, sem qualquer exceção, se fazem poluídos em sua concepção. Não se achará, porém, o ponto de partida desta poluição, se, como à fonte, não remontarmos ao primeiro genitor de todos. Desse modo deve-se, por certo, sustentar que Adão não foi apenas o progenitor, mas ainda como que a raiz da natureza humana, e daí, na corrupção daquele, foi com razão corrompido todo o gênero humano. Isto o Apóstolo faz claro pela comparação daquele com Cristo. Diz ele: “Assim como através de um só homem entrou o pecado no mundo inteiro, e através do pecado a morte, que foi propagada a todos os homens, uma vez que todos pecaram, assim também, pela graça de Cristo, nos foram restituídas a justiça e a vida” Rm 5.12, 17. (CALVINO, Op. Cit; Parágrafo 6).

Desta maneira, tanto os autores inspirados conquanto o teólogo francês estão certíssimos! O Salmista Davi poeticamente ora: “Eu nasci na iniqüidade em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). O salmista confessa ainda: “Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.2,3).

E o apóstolo Paulo mostra na sua epistolo ao Roamos que tanto judeus quanto gentios, estão debaixo do pecado, inclusive os infantes dos discípulos de Pelágio.

Como está escrito: Não há justo, nem um sequer. Não há quem entenda, não há que busque a Deus; Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; Não há quem faça o bem, não há nem um sequer (Rm 3.10-12).

 

A Visão Federal ou Representativa da Queda

Segundo esta teoria proposta pelos teólogos reformados há uma solidariedade impossível de negar entre Adão e nós; De sorte, que a queda do primeiro homem – Adão foi a minha. Sproul de maneira precisa diz:

A idéia principal do federalismo é que, quando Adão pecou, ele pecou por todos nós. Sua Queda foi a nossa queda. Quando Deus puniu Adão por levar embora sua justiça original, nós fomos igualmente punidos.

A maldição da queda afeta a todos nós. Não somente Adão foi destinado a ganhar a vida com o suor do seu rosto, como isso tornou-se verdade para nós também. Não somente Eva foi designada para ter dores de parto, como isso tem sido verdade para as mulheres de todas as gerações humanas.

A serpente errante no jardim não foi o único membro de sua espécie que recebeu a maldição de rastejar sobre seu ventre (SPROUL, Op. Cit; Pg. 37).

Os textos que mostram que essa realidade do pecado sobre a raça human é os mesmos que a Bíblia de Estudo Pentecostal citada acima também revela, desta vez sob à ótica bíblica reformada. Romanos 5 é claro em descrever esta solidareidade:

“…por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte…” (v. 12).

“…pela ofensa de um só, morreram muitos…” (v. 15).

“…por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” (v. 18).

“…pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores…” (v. 19).

Não há como escapar de um estudo profunda destes textos que o Novo Testamento estar nos ensinando que a Queda de Adão foi a minha .

Alan e Franklin Ferreira fala-nos de um paralelo que é visto assim:

Todos os membros da raça humana recebem a culpa imputada de Adão (a culpa dele é imputada à nossa conta), porque ele é o cabeça deles. Mas Cristo é o segundo Adão, o fundador de uma nova raça, a raça cristã. Adão não passou no teste, mas Cristo passou, e todos os membros da raça cristã recebem os benefícios da sua vitória, a justiça imputada de Cristo, porque existe uma solidariedade entre o cabeça e o os membros da raça. Uma pessoa se torna um membro da raça humana por nascimento (“todos”, v.18); uma pessoa se torna um membro da raça cristã por meio de um novo nascimento (“todos”, v.18, mas todos “que recebem”, v.17) (ALAN MYATT & FRANKLIN FERREIRA; Op. Cit; Pg.130).

Os advogados desta teoria como Sproul salienta:

Estou persuadido de que a visão federal da queda é substan­cialmente correta. Somente ela, entre as três que examinamos, faz justiça ao ensinamento bíblico da queda do homem. Satisfaz a mim que Deus não seja um tirano arbitrário. Sei que sou uma criatura decaída. Isto é, sei que sou uma criatura, e sei que sou decaído. Também sei que não é culpa de Deus se sou pecador. O que Deus fez por mim foi redimir-me de meu pecado. Ele não me redimiu de seu pecado (SPROUL, Op. Cit; Pg. 40).

Ainda o mesmo conclui de modo especial:

Adão lançou-se no poço. Em Adão, nós todos nos lançamos no poço. Deus não nos atirou dentro do poço. Adão foi claramente prevenido a respeito do poço. Deus lhe disse para ficar longe. As conseqüências que Adão experimentou por estar no poço foram uma punição direta por ter-se lançado nele. Assim é o pecado original. O pecado original é tanto uma conseqüência do pecado de Adão quanto uma punição pelo pe­cado de Adão. Nascemos pecadores porque em Adão todos caíram. Mesmo a palavra queda tem um pouco de eufemismo. E uma visão cor-de-rosa do assunto. A palavra queda sugere um acidente da sorte. O pecado de Adão não foi um acidente. Ele não era o Pateta. Adão não escorregou simplesmente no pecado; ele lançou-se ao pecado com ambos os pés. Nós nos lançamos imprudentemente com ele. Deus não nos empurrou. Ele não nos enganou. Ele nos deu advertência adequada e justa. A culpa é nossa e somente nossa. Não é o caso de Adão ter comido uvas verdes e nossos dentes terem se embotado. O ensino bíblico é que, em Adão, todos nós comemos uvas verdes. É por isso que nossos dentes se embotaram (SPROUL, Op. Cit; Pg. 41).

 

Continua com a parte II…

Extraído do site: http://www.eleitosdedeus.org/depravacao-total/total-depravacao-parte-i-gunnar-lima.html#ixzz0dcPL3HJQ
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